“Homem é assim mesmo”; “Mas porque você continuou com ele?”; “Se não bateu não é abuso”; “Você nunca vai encontrar alguém que te ame como eu”; “Não preocupe, ele só te ameaçou”. Essas são frases que fazem parte da vida diária de mulheres por todo o Brasil.
Com o intuito de abrir uma discussão acerca desta realidade, o Sesc promove, através da sua galeria de arte, a exposição “Caladas”, da artista sergipana Yasmin Thainá, que estreou no dia 17 de outubro e seguirá no espaço até o dia 12 de dezembro de 2019.
Através de 52 aquarelas de ilustrações de bocas variadas, prints de conversas e uma gravação de áudio interativa, a exposição #Nãomaiscaladas expõe a realidade e o mundo interno das mulheres que vivem ou viveram um relacionamento abusivo.



Yasmin começou a pintar a série de aquarelas que hoje compõe a mostra como uma forma de entender e expressar suas dores e experiências. Com o incentivo de um professor, a artista decidiu ampliar o projeto e criar a hastag #Nãomaiscaladas onde, através das redes sociais, mulheres sergipanas compartilharam suas experiências com relacionamentos abusivos.
A escolha da boca como objeto de ilustração se dá por tudo que ela representa: uma fonte de repressão, mas também um instrumento literal e figurativo de denúncia do abuso. Cada boca ilustrada pela artista emite uma interpretação diferente, com o intuito de abranger os diferentes tipos de abuso existentes.
“Quando outras mulheres falam das suas dores, a gente não se sente tão sozinha. A exposição surgiu da minha luta pessoal, mas é compartilhada por várias mulheres. A sociedade dita como normal coisas que não deveriam ser, como o abuso. Não tem como ser normal se machuca o outro, não tem como ser normal brincar com a dor do outro”, exclama a artista.

Educar pela arte
Na tarde da terça-feira (19), a exposição recebeu a visita da turma do terceiro ano do colégio Estadual Dom Luciano José Cabral Duarte, acompanhada da professora de artes Willma Souza, para uma aula de aquarela com Yasmin.
A aluna Letícia dos Santos, de 18 anos, não tem o costume de pintar ou desenhar, mas amou a experiência e se emocionou com a exposição.
“O trabalho é muito bonito e criativo. O abuso acontece todos os dias e já é normatizado. Se estivesse acontecendo comigo e eu visse essas aquarelas, sentiria vontade de falar sobre”, relatou a aluna.

A professora de artes Willma Souza, que acompanhou a turma, frisa a importância das artes na formação dos jovens e no incentivo de debates de temas relevantes, como o abuso dentro de relacionamentos.
“É importante para os alunos saírem do ambiente escolar, conhecer uma galeria de artes e ter contato com as novas técnicas e materiais artísticos. Além disso, a temática é muito importante, já que essa questão dos relacionamentos está em constante mudança, principalmente para os jovens. Estamos agregando um valor artístico, cultural e social nas suas vidas”, disse a professora.

A galeria
No núcleo de cultura do sistema Fecomércio/Sesc/Senac, uma das iniciativas é a Galeria de Artes, localizada no Sesc Centro, no Bairro São José, Rua Senador Rollemberg, 301. O espaço faz parte do projeto nacional Arte Sesc, uma das mais importantes iniciativas de artes visuais no Brasil.
Ela funciona das 10h às 18h, de segunda a sexta, com entrada gratuita. No espaço, funcionam exposições e experimentos artísticos, muitos envolvendo jovens estudantes.
Em 2019, já foram expostos os trabalhos de 5 artistas sergipanos, selecionados pelo Edital de Seleção de Propostas Artísticas do Sesc, que acontece uma vez por ano através portal. O próximo edital tem previsão de ser lançado no início de 2020.
Ao serem selecionados, os artistas recebem um cachê e auxílio da equipe de artes do Sesc para montar as exposições. A duração das mostras varia entre 30 a 40 dias úteis. A curadora do espaço, Vanderléa Cardoso, chama atenção para a importância da iniciativa tanto para os que frequentam o Sesc, quanto para a cena artística sergipana.
“O espaço é importantíssimo. Uma coisa muito incrível que o Sesc faz na área da cultura é pensar nos processos de mediação. Se a gente faz a exibição de um espetáculo ou de um filme, sempre rola uma discussão póstuma, se a gente visita uma exposição de arte, há o contato com os mediadores e com os artistas e atividades práticas complementares. Isso tudo conta para que o público que frequenta o Sesc, que são, em sua maioria, comerciários, tenha contato com algo diferente da rotina, conheçam um novo artista e ampliem o seu repertório cultural”, explica a curadora.